EXPEDIÇÃO
TRAVESSIA

11 a 17
agosto
Parte Alta Parque Nacional de Itatiaia
Rio de Janeiro / Brasil
Com Deco Adjiman e Patricia Stagi
A Expedição Casero é uma pesquisa de campo imersiva que investiga os campos de altitude e a biodiversidade da Parte Alta do Parque Nacional de Itatiaia, há quase 3 mil metros de altitude.
Em 2026, a Expedição chega aos cumes do Pico das Agulhas Negras (2.791m), da Pedra do Altar (2.665m) e do Maciço das Prateleiras (2.539m) e desce para parte baixa pela Travessia Ruy Braga. Percorreremos os caminhos da região formada por um ecossistema único, marcado por espécies endêmicas e uma geologia de milhões de anos. Entre caminhadas e proposições, acompanhamos os residentes que investigam e desenvolvem um repertório poético da montanha, documentando as paisagens de altitude - os campos de altitude, e ativando processos artísticos.
A caminhada é o principal método de investigação, com um movimento de deriva em direção ao cume. Durante o percurso, registramos espécies, observamos fenômenos naturais e catalogamos fragmentos da paisagem com o objetivo de investigar, interpretar, interagir e integrar o corpo-natureza em ambientes rarefeitos.




Caminhada como método
Texto: Deco Adjiman
O chão é um ensino.
Manoel de Barros
“Meu pai, quando encontrava um problema na roça, se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para seu interior,
para decidir o que usar, o que fazer, onde avançar, onde recuar. Como um médico à procura do coração.”
Itamar Vieira Júnior
... Existe é o homem humano. Travessia.
João Guimarães Rosa
O movimento de andar, esse gesto fundante da nossa espécie humana, como um ato artístico em si mesmo e registrado apenas com as pegadas na paisagem. Ou o caminhar como forma de pesquisa do subjetivo “caminhar para pensar melhor, para sentir além, para meditar” e então deixar que isso reverbere na prática artística posterior. Talvez a deriva como investigação do acaso, caminhar sem destino, deixando que cada passo conduza o próximo. Talvez a travessia como gesto de expansão corporal. Ou a perambulação como forma de coleta da paisagem, uma pedra, um galho, a vista da montanha, a forma como o pássaro faz no vento. O chamado é para explorar as diversas potências da caminhada como método disparador de sentidos.
Os campos de altitude do Itatiaia apresentam vazios cheios de preenchimentos e silêncios repletos de sabedoria, ao conduzirmos nosso corpo entre esses espaços, passo a passo, ampliamos horizontes, atravessamos fronteiras invisíveis, dialogamos com uma pequena flor, sentimos a gota de suor que escorre da testa, sentimos a mão do companheiro que ajuda a atravessar a pedra, o gole da água gelada que brota da terra, o medo, o cansaço, a liberdade, a solidão, a lentidão, a energia. Ao caminhar o desconhecido ampliamos nosso chão e nossos sentidos, alargamos nosso estar na Terra. Caminhamos para expandir, mas talvez a verdadeira razão para subir a montanha mais alta seja somente para lá de cima poder enxergar melhor o nosso dentro.
Ateliê
Altitude
Texto: Patricia Stagi
O Ateliê-Altitude é uma proposta de prática artística nômade que se instala em ambientes de montanha e transforma o espaço natural em um laboratório de criação artística nas grandes altitudes. Neste território de paisagens extremas, onde o ar é rarefeito e as condições climáticas são determinantes, artistas são convidados a criar em diálogo com a materialidade in situ: utilizando o próprio ambiente e seus fragmentos - como rochas, vegetação rasteira e sedimentos, para produzir obras efêmeras, registros sensoriais e audiovisuais e processos colaborativos que desafiam os limites do próprio corpo.
A arte, durante a prática do ateliê-altitude, emerge da imersão no ambiente, em conversa com a geografia, a ecologia e a história da montanha. Técnicas como land art, bioarte e documentação processual se conectam a saberes científicos e cosmovisões ancestrais, guiadas por uma ética de mínimo impacto e profundo respeito ao lugar.
O Ateliê-altitude potencializa uma investigação sobre escala, sobre o espaço do silêncio e sobre o tempo geológico. É um exercício de escuta das alturas: um processo que exige pausa, resistência do corpo e da mente e adaptação às intempéries do clima e do tempo. O Ateliê-Altitude é uma investigação sobre o sublime e o efêmero, sobre o corpo bruto e a fronteira do sensível.
